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segunda-feira, 23 de maio de 2011

A FACE HILÁRIA DA CIDADE

O ESTIVADOR

O antigo porto de Ilhéus, situado na enseada do rio Cachoeira recebeu, durante um considerável período, navios de grande porte, tanto de passageiros como cargueiros, até que a barra do morro de Pernambuco sofreu considerável assoreamento, inviabilizando o acesso. Os cargueiros, em sua maioria, eram de bandeira sueca, embora outros americanos, russos, holandeses, etc., também aqui aportassem. Tais navios transportavam especialmente cacau para a Europa. De um modo geral todos esses navios eram chamados pela população de suecos, independentemente das suas nacionalidades.
O personagem principal enfocado nesta história é o ilheense Oseas, mais conhecido pelo apelido de SUECO. Ele era um dos mais de vinte filhos de prolífico cidadão que se relacionou com várias mulheres. O próprio Sueco dizia desconhecer todos os seus irmãos e contava uma passagem superinteressante. Dizia que seu pai tinha tantas mulheres que uma delas era ao mesmo tempo sua mãe e sua irmã, e explicava: “Meu pai relacionou-se com uma mulher que já tinha uma filha, quase da minha idade. Rompeu tal vínculo e passou a viver com a enteada. Desse modo a esteada que era minha “irmã” ao mudar de “status” passou a ser minha “mãe”.
O apelido sueco deveu-se ao fato de Oseas na adolescência frequentar o cais do antigo porto e relacionar-se com os marinheiros dos diversos navios, prestando-lhes vários favores. Vendia ou trocava whisky por álcool (os russos, especialmente, só gostavam de bebida forte e chegavam a beber a bebê-lo com 90º. Além disso, os levava para o brega (Rua do Dendê e do Sapo) onde servia de intérprete). Foi desse modo que aprendeu a falar inglês e que ganhou o famoso apelido. Tornou-se tão conhecido entre os marinheiros estrangeiros e até mesmo da oficialidade que conseguiu embarcar como clandestino num navio de bandeira americana e chegar aos Estados Unidos. Lá conseguiu seu primeiro emprego num restaurante, onde começou descascando batatas e fazendo outros serviços como auxiliar de cozinha, passando a cozinheiro e garçom, Este restaurante tinha uma peculiaridade. Eram os próprios funcionários responsáveis pela apresentação dos shows. Desse modo Sueco aprendeu a sapatear, tocar piano, bateria e a imitar cantores famosos como Bing Crosby, Perry Como, Frank Sinatra, Tony Benett, Frank Lane, Billy Eckstine, Louis Armstrong e Gene Kelly. Contava que lutou na guerra da Coréia como voluntário. Após a guerra veio para Santos, onde entrou para a estiva.
Eu o conheci aqui em Ilhéus, na época do jogo, que funcionava nas boates do Ilhéus Hotel, O.K., e Vogue. Onde ele estava sempre havia uma grande concentração de pessoas ouvindo atentamente suas histórias. Ele dramatizava as narrativas, fazendo gestos largos, expressões faciais correspondentes à sua atuação ou de qualquer outro personagem da história, franzindo o cenho, escancarando o sorriso, fingindo chorar, dando rasteira, soco, pontapé, escorregando, fugindo, etc. Cada passagem era interpretada até com voz especial para cada participante da história. Outra peculiaridade digna de menção é que ele quando contava qualquer caso em que era personagem sempre levava desvantagem. Se era briga, apanhava, em negócio, tinha prejuízo, com mulheres sempre era passado para trás. Sem contar vantagem conseguia sempre atrair simpatia dos seus ouvintes. Na boate “OK” sempre o encontrava ou após o término do show costumava jantar no seu restaurante Blue Moon, na Rua do Sapo.  O aludido restaurante só preparava filé mignon com acompanhamentos diversos. Os principais pratos eram o “Tornedos à Rossini”, “Chateaubrind”, “Scalopini”, “Poivre ao Madeira” “À Oswaldo Aranha” e “Roncolho” (este era uma filé com fritas, arroz e apenas um ovo). Os pratos eram preparados por ele mesmo, que tinha uma habilidade enorme para apresentar inovações, especialmente na feitura de batatas. Foi a primeira vez que vi batatas “Rostie” além de outras variedades que não conhecíamos por aqui.
Quanto a maneira de trajar era também bastante original e exótico. Seus ternos eram normalmente de cores claras (branco, creme, cinza, lilás, etc.), os tecidos eram o linho, rayon, “Palm Beach” e “Panamá”. As gravatas eram bem espalhafatosas, com motivos havaianos: mulheres nuas, coqueiros, sufistas e coisas do gênero. Quando trajava esporte usava “jeans” e camisas do gênero das gravatas. No bolso do paletó pendia sempre um lenço que mais parecia uma gaivota em pleno voo – lembrando o saudoso Nagib Daneu.
Foi mais ou menos nessa época que apareceram por aqui George Green (famoso cantor panamenho, de calipso, salsa, merengue e outros ritmos caribenhos) e sua companheira, a portenha Anita, que era dançarina solo. Ambos se apresentavam na “OK” em shows separados e tinham uma legião de fãs. Após concluir o tiro de guerra fui estudar no Rio de Janeiro e morei na Rua Paula Freitas, no ap. nº 509, do Edifício Newton, passando a vir a Ilhéus apenas nas férias, onde encontrava ocasionalmente Sueco. No mesmo prédio em que eu estava morando no Rio, moravam George Green e Anita, no apt. 705. George se apresentava às noites do “Scotch Bar” e também integrava o show da Boate Night and Day, dirigido pelo  famoso Carlos Machado. Num determinado dia eu voltava para casa e saltei de um lotação na esquina da N.S. de Copacabana com Paula Freitas, quando encontrei Sueco no boteco “Caruso”. Ele fez uma festa enorme e me convidou para tomar um chope, dizendo ter muitas novidades para me contar. Começou a narrativa: “Olha Antônio, outro dia encontrei aqui mesmo nesta esquina Anita, a mulher George Green. Convidei-a para um chope e batemos longo papo. Perguntei-lhe por George e ela me disse que estavam separados. Ele estava morando com uma mulata, passista da Portela, que também se apresentava no show de Carlos Machado.” Depois de bebermos vários chopes ela me convidou para beber um “Cuba Libre” em seu apartamento. “Lá chegados serviu os drinques e ligou o som, colocando discos de música caribenha (mambos, rumbas, guarachas, salsas, calipsos, merengues). Bebemos bastante dançamos. Em determinado momento, quando estávamos sentados no sofá da sala ela, absolutamente de inopino, pegou meu bilau e beijou no capricho. Eu tomei um grande susto, porém logo me recompus. Por uma questão de princípio não gosto de ficar devendo favor a ninguém. Fiel aos meus princípios, BEIJEI-LHE A XERECA.       

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